Caçarolas do Gelo

23 de dezembro de 2012 5 comentários
Caçarolas do Gelo

 Você está convidado para o chá das Cinco. Nele, serve-se a dramaturgia nefasta de Máximo Gorki, como na crítica bem elaborada dos Pequenos Burgueses. Em um certo momento, para-se o café ou o chá e centra-se na frase  "Se você olhar bem, verá que o mundo todo é um jardim!", do filme O jardim Secreto. As pessoas estão tão centradas na própria vaidade, são tão narcísicas, que não conseguem prestar muita atenção, quando alguém delas se aproxima, verdadeiramente, por afeto. Imaginam que todas as outras só querem tirar proveito e, com isso, perdem valorosas sensações de carinho. Nosso mundo tornou-se produto do desafeto e, é isso que tem sido servido nos últimos chás românticos.

Enquanto isso, alguém poderá ter degustado toda música sinfônica e operística de Wolfgang Amadeus ou o seu Requiem. Degusta-se Mozart no popular.
Quero deixar à mesa, alguns versos heterônimos de Fernando Pessoa para quem se dispor a transpor a razão do que é viver (na Pessoa). De quebra, ainda mando servir Drummond e Adélia, bem-casados poéticos e chá de melancolia, se bem-vindos com um tango-canção no compasso dois por quatro. Portanto, vá preparado para a contradança. É possível dançar e tomar chá, lá pelas cinco, hora de repensar os passos.

A história do chá inglês nem mineiro cumpre à risca. Posso adiantar  o chá e servi-lo um pouco mais cedo. Prepare-se pois, para todas as honras da intelectualidade  e do rebuscamento da linguagem. Um chá que exige muito do seu conhecimento clássico e você só sai bem servido se estiveres ao alcance do cardápio.
Nem tente ficar para o jantar. Os pratos do jantar são caros e reservados. Mas se você quiser brindar o sucesso do chá, agende com antecedência.

Pontualmente, finalizamos o chá às seis e trinta. Hora de entardecer o cansaço ou a alegria. De qualquer maneira, alguma coisa sempre fica por entardecer. Por isso, o nome do chá torna-se Prudência, já que ele compraz toda a etiqueta dos bons anfitriões. A mesa fica salpicada de biscoitos da culinária escandinava e, debaixo de cada pires, haverá sempre um verso para entreter seu corpo todo. No inverno então, é uma constipação de rimas alternadas.

Venha! A confeitaria reserva-se ao direito de servir queijo de cabra, a humilde sobremesa de pão preto com cerveja, bolos de gengibre, tortas de maçã ou empadinhas de compota de maçã. Aproveite também a paisagem na parede que  pintei em algum dezembro. Lembra a pedra da Gávea? Pois trata-se da própria, em granito, transliterada. Copiei lá mesmo na Barra da Tijuca, quando fui ao Rio pela primeira vez. Lembra a onda? O beijo? Nosso romance que só começamos e não conseguimos terminar? Lembra nossos encontros na estação do trem que dava em Parati? Nossos livros ficaram na estante que divide a eternidade e o instante. Eu lia Adélia para você, no canto do quarto, sobre a cama rendada e você ria, beijando minhas mãos com as unhas pintadas da cor do vermelho real.

Então, de prosa em prosa, a única finalidade permanente de um chá é a quantidade de comida que se experimenta. Discrição é ingrediente útil e adoçante, coisas de dieta não combinam com o gênero. Se tiver que se abster, nem venha. Mas se tiver tempo e coragem para desmontar o estômago de forma poética, deite e role. Depois que se rola é que se enrosca.

Um convite como esse, só tem uma vez no ano e outra, por engano. A vez do engano é aquela em que você achou que seria, mas não foi. A vida se desdobra. Antes de uma viagem, há sempre uma preparação. Um chá é um tipo. Prorrogada a farra, não se esqueça de dar até logo e retribuir o convite. E nada de pedir receita ou levar um biscoitinho minúsculo no guardanapo, porque isso é altamente indiscreto. É antipolite e pode colocar em dúvida seu nome na lista para o próximo chá.

A paciência também pode ser servida junto ao gelo. Só o tempo refaz, de forma muito poética, um milhão de coisas que não conseguimos degustar com a nossa incrível capacidade de ter pressa. Por isso, os ingleses aprenderam a servir o chá, porque ele é tão pontual, quanto oportuno. Algumas delícias da vida são servidas na fumaça. Muitas outras, no entanto, só conseguimos degustar no gelo. É o gelo que vai manter "o amar" , "o sofrer" e a memória  sempre frescos, como se tivessem sido tirados da fôrma
Para quem tem pressa, muitas vezes, uma fornalha superaquecida só serve para fazer com que o nosso sentimento perca a forma.Por isso, existirão sempre os chás, para que as conversas sejam jogadas fora e para que o amor não perca a sua possibilidade de aparecer de novo.
                                  Um abraço Lila Mendes


 

5 comentários:

  • Anônimo disse...

    Marília você é muito especial. Aquilo que você escreve, suas fotografias e tudo que você faz é parte da suas virtudes.Muita saudade de você e espero vê-la em janeiro.
    um beijo.

    Carlos Henrique

  • Anônimo disse...

    Mari, quando vc vem a Brasília?
    saudade enorme de vc.Lindo blog. Deixei mens. na sua caixa do Face. Vc leu?
    Bj. Sandra.

  • Anônimo disse...

    E aí fessora, a senhora é artista mesmo, hein. Seus blogs são maravilhosos.
    Parabéns!
    Um feliz 2013 para a senhora e família. Que Deus continue te enchendo de ideias e criatividade.
    Um beijão.Achei seu facebook. Me adiciona lá.
    Hugo do Cetem.